04/11/2018 às 09h00min - Atualizada em 04/11/2018 às 09h00min

Funcionários da rede Marriott fazem greve por melhores salários e condições de trabalho

Paralisação teve início em outubro e se espalhou por 23 hotéis em cidades americanas e Havaí

Agência O Globo

Funcionários da rede Marriott fazem greve por melhores salários e condições de trabalho (Foto:Reprodução)

Uma paralisação de funcionários da rede Marriott International, a maior cadeia de hotéis do mundo, tem pego os hóspedes de surpresa. O movimento começou no início de outubro e rapidamente se espalhou para 23 hotéis operados pelo Marriott em Boston, Detroit, São Francisco, San Diego, San Jose e Oakland, Califórnia, Honolulu, Lahaina e Maui.

  Uma das hóspedes afetadas pela greve foi Edna Garcia, que juntou suas economias por dois anos para poder pagar uma viagem de férias de 18 dias no Havaí acompanhada de duas primas. 

  — Era para ser uma viagem muito especial para nós três — disse Edna, que vive em San Antonio, no Texas, e reservou dois quartos no Sheraton Princess Kaiulani, em Honolulu, pagando US$ 9.030.— Nos divertimos muito nos primeiros dias — disse Edna, de 58 anos, que, no 11º dia da viagem, em 8 de outubro, acordou no susto com os gritos e berros que ecoavam pelo hotel. 

  Naquele dia, camareiras, cozinheiras, garçons, lavadeiras de pratos, bartenders, porteiros, mensageiros e concierges começaram a abandonar seus postos de trabalho ao aderirem a uma greve nacional de 7.700 funcionários de 23 hotéis operados pela rede Marriott International.

  Os hóspedes foram avisados de que os restaurantes, serviço de quarto e os bares não estavam funcionando e que a limpeza dos quartos só seria feito quando solicitada ou após o check-out. Eles foram orientados a depositar o lixo, material para reciclagem e as toalhas sujas em cestos colocados nos elevadores, e que pegassem os artigos de toalete, toalhas limpas, café, garrafas d'água e xícaras no saguão do hotel.

  — Ficava tudo em caixas ou em cestas dispostas em mesas no saguão, e todos tinham que pegar o que precisavam ao voltar de suas atividades e passeios — contou Edna, acrescentando que, em determinado momento, teve que estocar toalhas de rosto e de banho no seu quarto.

  Furar o piquete dos funcionários para chegar ao estacionamento e pegar o carro para sair do hotel foi o principal aborrecimento que teve durante sua estadia. Os funcionários de reuniam muito cedo, por volta das 7h, e começavam a gritar palavras de ordem tentando incitar os hóspedes a deixarem o hotel. 

  Os hotéis afetados

  Hoje, o Marriott Internacional, entre contratos de gerenciamento ou franquia, conta com cerca de 6.700 hotéis, com pelo menos 30 marcas, em 130 países e territórios. O movimento dos funcionários atingiu diferentes marcas do grupo, incluindo Marriott, Sheraton, Aloft, Element, Ritz-Carlton, W, Palácio, Pátio, St. Regis, Westin e Royal Hawaiian. Em 2017, o grupo Marriott International teve lucro líquido de US$ 1,37 bilhão.

  De acordo com Connie Kim, porta-voz da Marriott International, os grevistas fazem parte de um grupo cujos acordos de negociação coletiva expiram este ano. As negociações nos hotéis envolvidos na paralisação continuam, e não há planos de votar a extensão da greve para outras 17 unidades antes do fim do ano, disse Rachel Gumpert, porta-voz da Unite Free, o sindicato que representa os trabalhadores em greve. O sindicato tem uma lista completa dos hotéis envolvidos na greve em seu site.

  Todos os hotéis afetados pela paralisação estão abertos e, embora os serviços possam ser interrompidos, Connie Kim enfatizou que os quartos são limpos entre a saída e a entrada de novos hóspedes. Ela, no entanto, não informou se os gerentes ou trabalhadores substitutos estão mantendo os hotéis funcionando. O hóspede que quiser pode ligar para o hotel antes de sua chegada para verificar como está o fluxo de serviços. O Sheraton Princess Kaiulani, onde a personagem citada na matéria se hospedou, por exemplo, recomeçou a oferecer café da manhã no restaurante e serviço de bar limitado à beira da piscina.

  O que está em jogo?

  Os trabalhadores querem salários compatíveis com o custo de vida das cidades onde as greves estão sendo realizadas, disse Rachel Gumpert. O salário varia de cidade para cidade, assim como os benefícios propostos, mas uma camareira do hotel onde Edna Garcia se hospedou, o Sheraton Princess Kaiulani, ganha cerca de US$ 22 por hora, disse Gumpert. Se a camareira trabalhou 40 horas por semana durante o ano, o total de US$ 45.760 recebido é apenas US$ 4.900 acima do limite de "muito baixa renda" estabelecido pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano do Condado de Honolulu, entidade que avalia os custos de moradia. 

  O sindicato também está preocupado com a perda de emprego devido a alguns tipos de automação, como a substituição de funcionários da recepção por iPads que fazem o reconhecimento facial, ou a terceirização de serviços para a preparação de alimentos.

  O sindicato também se opõe ao atual programa do Marriott "Make a Green Choice", que oferece pontos no programa de fidelidade para os hóspedes que abandonam o serviço de limpeza diário. O sindicato não quer acabar com o programa, mas disse que descarta o cronograma pesado de limpeza ao qual as funcionárias são submetidas. Alegam que, quando vários hóspedes fazem o checkout ao mesmo tempo, os 30 minutos determinados pelo Marriott não são suficientes para uma camareira limpar e preparar um quarto padrão para atender o horário de check-in, disse Rachel. Por isso, pedem que a rede de hotel estenda o tempo reservado para a limpeza dos quartos.

  A porta-voz do Marriott se recusou a comentar detalhes, mas disse em um comunicado: "A Marriott é um empregador competitivo que paga muito acima do salário mínimo na maioria dos mercados e oferece benefícios generosos. Por anos, a Marriott investiu na força de trabalho da empresa por meio de benefícios e treinamento ", especialmente para os trabalhadores que recebem por hora.

  Cancelamento da reserva

  —Seja qual for a política de cancelamento do hotel, ainda está valendo — ressaltou a porta-voz do grupo. 

  As políticas de cancelamento variam de acordo com o hotel e podem depender da época do ano, mas os estabelecimentos podem exigir que o cancelamento seja notificado até 72 horas para que o cliente receba um reembolso total. Connie disse que não tinha ouvido falar de muitos cancelamentos, mas não ofereceu números. Já Rachel Gumpert, representante do sindicato, informou que "dezenas de grupos" cancelaram ou realocaram eventos de hotéis envolvidos na greve, incluindo o CityLab 2018, recente cúpula global em Detroit, e o ComNet 2018, uma conferência planejada para acontecer no Westin St. Francis, em San Francisco, e mudou de local no início deste mês a um custo de mais de US$ 300.000.

  Os hotéis, no entanto, não estão avisando se parte de seu quadro de funcionários cruzaram os braços antes de os hóspedes fazerem o check-in. Isso por que, segundo Connie, os hotéis estão “operacionais e funcionais” e que as reclamações estão sendo tratadas pelo serviço de atendimento ao cliente, caso a caso.

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