14/02/2018 às 13h30min - Atualizada em 14/02/2018 às 13h30min

Análise: Para chineses, degelo entre Coreias só continuará com aval dos EUA

Comunidade internacional observa com cautela chance de extensão da trégua olímpica

Agência O Globo

Na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, a bandeira da unificação (FOTO: KIM KYUNG-HOON / REUTERS)

Quem acompanhava o noticiário sobre a fervura na Península Coreana durante todo o ano passado — que esteve por um triz de atingir o ponto de ebulição —, jamais imaginaria que, durante a cerimônia de abertura da 23ª Olimpíada de Inverno, as delegações das Coreias do Sul e Norte desfilariam sob a mesma bandeira azul e branca da unificação.

Todos os olhos estão voltados para a cidade sul-coreana de Pyeongchang. Para muitos espectadores, mais importante do que o desempenho dos atletas e as medalhas serão os sinais políticos enviados para o resto do mundo. Serão suficientes, para, apesar do frio intenso deste lado do mundo, quebrar o gelo entre as partes de uma disputa que se arrasta há 70 anos, o período da separação entre as Coreias? Não há dúvida de que existe uma janela de oportunidade para o diálogo na região. E as últimas semanas, desde que a Coreia do Norte afirmou que enviaria uma delegação para as Olimpíadas e que o presidente da Coreia do Sul avisou que faria de tudo para que o evento pudesse pavimentar o caminho para a paz, apontam nesta direção.

Mas discutir uma relação tão desgastada, alimentada pela desconfiança durante todos esses anos não será fácil. A China, talvez o último aliado dos norte-coreanos, reconhece um cenário melhor, mas afirma que ainda há muito pela frente. A solução de paz, segundo os chineses, passa pelo diálogo com os americanos. Essa foi a mensagem do porta-voz do governo, Geng Shuang, esta semana. Ele disse que os Estados Unidos e a Coreia do Norte “estão no centro das contradições na península” e que “os dois países devem ter em mente a paz e estabilidade na região e aproveitar a oportunidade para estabelecer o diálogo”. Ontem, o vice-presidente americano, Mike Pence, disse que não se encontraria com os norte-coreanos, embora não tenha fechado a porta por completo. O enviado norte-coreano disse que tampouco tinha interesse.

Em Pequim, o especialista do Centro Carnegie Tsinghua, Zhao Tong, disse que a janela de oportunidade está aberta, mas ele a atribui menos aos jogos e mais a uma espécie de moratória dos testes feitos por Pyongyang. Segundo Tong, Kim Jong-un estaria satisfeito com os resultados do último teste, realizado em novembro passado, que mostraria que um míssil de longa distância poderia chegar até os Estados Unidos, e, com isso, estaria pronto para negociar. Os americanos condicionam as conversas à suspensão total do programa nuclear norte-coreano, algo que o líder norte-coreano já deixou claro que não vai acontecer.

— Se a comunidade internacional fizer a coisa certa, poderemos persuadir a Coreia do Norte a pelo menos restringir de maneira séria novos desenvolvimentos de mísseis ICBMs (os mísseis de longa distância). Agora, se isso vai acontecer, vai depender muito mais da maneira como os Estados Unidos vão responder — disse Tong.

Em editorial publicado esta semana, o jornal estatal "China Daily", considerado um dos parta-vozes do governo chinês afirma que “a menos que os dois lados demonstrem sinceridade para realizar compromissos e pavimentar o caminho para conversas de substância, a trégua olímpica pode não ir além das jogos, a despeito da ansiedade de Seul de tentar ao máximo”. Segundo o periódico, por mais que Pence não tenha fechado de todo a possibilidade de um encontro, “a sua prioridade é garantir que Pyongyang não ‘sequestre’ os jogos, e que os jogos não sejam explorados para minar a estratégia de ‘máxima pressão de Washington’.” Ou seja, para afrouxar a tática de apertar ainda mais as sanções contra o regime de Kim Jong-un.

A Coreia do Norte da paz e amor das últimas semanas fez questão de antecipar de abril para a véspera do início dos jogos uma grande parada militar em comemoração aos 70 anos do Dia da Construção das Forças Armadas. Além disso, cancelou um evento conjunto que teria com os sul-coreanos, marcado para semana passada, depois que a mídia questionou o compromissos de diálogo entre Seul e Pyongyang.

Em Pyongyang, a mensagem do governo é que existe a disposição para a unificação, mas de forma independente, sem qualquer interferência dos Estados Unidos. A ideia agora seria distensionar o ambiente com o objetivo final da unificação. Em seu discurso de Ano Novo, Kim Jong-un saudou os jogos e falou na melhora da relação entre as Coreias. Mas a comunidade diplomática internacional tem visto tudo isso com muita cautela.

— O melhor é que estão conversando — disse um diplomata em Pequim. — Mas, assim que retomarem os exercícios militares conjuntos em abril, a hostilidade deve ser retomada de novo.

O fato é que o canal de diálogo entre Norte e Sul tinha sido literalmente cortado há dois anos. É uma linha direta telefônica que eles tinham, que foi rompida, mas agora restabelecida.

— Sem dúvida, a retomada do diálogo foi um desdobramento extremamente positivo, e a esperança é que isso motive uma cooperação em outras áreas e um diálogo mais amplo em outros temas — disse ao GLOBO, Cleiton Schenkel, encarregado de negócios da Embaixada do Brasil em Pyongyang, uma das 24 que ainda estão presentes no país.

Por mais que exista um atalho em vista, a estrada é longa e vai existir muito mais esforços do que os feitos até agora.

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