15/02/2017 às 12h00min - Atualizada em 15/02/2017 às 12h00min

Beyoncé perdeu o Grammy de álbum do ano por causa do racismo?

Folhapress

Beyoncé perdeu o Grammy de álbum do ano por causa do racismo? (Foto: Divulgação)

 

Até Adele achou que Beyoncé merecia mais do que ela. "Eu não posso aceitar este prêmio. (...) A artista da minha vida é Beyoncé, e o álbum 'Lemonade' é tão monumental (...) e tão bem pensado e tão bonito e tão revelador, que todos nós vimos um lado seu que nem sempre você nos deixa ver, e nós agradecemos por isto. E todos nós, artistas, amamos você. Você é a nossa luz!."

Estes são apenas alguns trechos, em tradução livre, do discurso apaixonado que a cantora inglesa fez ao receber o Grammy de álbum do ano por "25". E que levou às lágrimas sua amiga Queen B, que assistia da primeira fila da plateia ao maior prêmio da música americana mais uma vez lhe escapar das mãos.

Foi pelo menos a segunda vez que Beyoncé foi roubada nos Grammys. Dois anos atrás, seu álbum homônimo também era o favorito na categoria principal. Só que, quando abriram o envelope, o troféu foi para "Morning Phase", de Beck, um disco sem a repercussão nem as vendas de Beyoncé.

Adele é uma artista formidável. Tem uma das gargantas mais poderosas do planeta, um repertório à prova de bala e uma incrível presença no palco. Além disso, é dona de uma beleza farta, que ajuda milhões de meninas acima do peso ideal a se sentirem mais bonitas.

Seu terceiro álbum, "25", foi o mais vendido em todo o planeta no ano passado. É um belo trabalho, sem faixas fracas e com um carro-chefe que vai se tornar um clássico: o baladão "Hello", que neste domingo (12) também levou os Grammys de melhor composição e melhor gravação do ano.

E nem por isto ela merecia ter ganho também melhor álbum. "Lemonade" é um projeto muito mais ambicioso, mais variado musicalmente e mais politicamente carregado. A limonada do título se refere ao que Beyoncé fez com os limões que a vida lhe entregou: das infidelidades do marido, o rapper Jay-Z, à própria condição de negra nos Estados Unidos.

"Lemonade" era a aposta dos especialistas para finalmente dar o Grammy a sua autora. Só que esses especialistas se esqueceram que o Grammy, quando na dúvida, sempre prefere premiar um branco.

Apenas dez artistas negros ganharam o Grammy de álbum do ano em toda a história do prêmio. O último foi Herbie Hancock, em 2008, por um disco de covers de Joni Mitchell - uma cantora e compositora branca.

"Lemonade" também era o vencedor perfeito para este início de governo Trump, quando o racismo reaparece camuflado de política de segurança nacional.

Mas os eleitores do Grammy - em sua imensa maioria, executivos brancos da indústria fonográfica - escolheram novamente Adele, que já havia vencido em 2012. Não é surpresa nenhuma: afinal, eles também já premiaram a insignificante Taylor Swift duas vezes com o troféu máximo.

Beyoncé continua sendo a mulher com mais indicações ao Grammy de todos os tempos. Também tem um ano glorioso pela frente, com a chegada de seus filhos gêmeos. E seu processo de canonização em vida segue célere: em sua performance na cerimônia deste domingo, com direito a véu, coroa e barrigão de fora, ela encarnou uma orixá, um avatar de Nossa Senhora, uma deusa da fertilidade.

Amém, Beyoncé. Você nem precisa, mas este Grammy era para ser seu.

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